Um levantamento detalhado do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG) acendeu o alerta para o colapso do sistema penitenciário no estado. O município de Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, desponta como o epicentro da crise, abrigando as unidades prisionais com os maiores índices de letalidade e o maior volume de denúncias de violações de direitos humanos em Minas Gerais.
Os dados, obtidos a partir de relatórios do Departamento Penitenciário (Depen-MG) e da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG), contabilizam 643 mortes de indivíduos privados de liberdade (IPL) entre janeiro de 2024 e 15 de março de 2026. O balanço engloba óbitos ocorridos dentro e fora das dependências carcerárias (como detentos do regime semiaberto).
O peso de Ribeirão das Neves nas estatísticas de óbitos
Excluindo o Núcleo de Gestão de Escolta Hospitalar (DSE) — que registrou 60 mortes por receber detentos já em estado grave —, as penitenciárias de Ribeirão das Neves lideram o ranking de mortalidade no estado:
Presídio Inspetor José Martinho Drumond (Ribeirão das Neves): 36 mortes.
Penitenciária José Maria Alkimin (Ribeirão das Neves): 32 mortes.
Somadas, as duas unidades da cidade registraram 68 mortes no período analisado. Em termos comparativos, o número supera o total do Núcleo hospitalar do Estado. A evolução ano a ano aponta para a persistência do problema no município:
Em 2024: O Presídio José Martinho Drumond registrou 15 mortes, enquanto a Penitenciária José Maria Alkimin contabilizou 13.
Em 2025: O número subiu para 19 óbitos no Drumond e 16 na Alkimin.
Até março de 2026: A tendência se manteve, registrando-se 3 mortes na Alkimin e 2 no Drumond em apenas dois meses e meio.
Liderança isolada em denúncias de violações
Ribeirão das Neves também lidera de forma isolada o ranking de queixas. Do total de 1.161 denúncias recebidas pelo Conedh-MG em seu último relatório anual, o sistema prisional concentrou impressionantes 83% (968 casos).
O Presídio Antônio Dutra Ladeira, também localizado em Ribeirão das Neves, foi o alvo principal da indignação de familiares e detentos, acumulando 233 denúncias. O volume é significativamente superior ao segundo colocado no estado, o Ceresp Gameleira, em Belo Horizonte, que teve 146 registros.
Vistorias realizadas recentemente pela Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) no Presídio Dutra Ladeira constataram cenários degradantes: superlotação crônica, celas insalubres e policiais penais trabalhando em condições precárias. Sindicatos da categoria e especialistas alertam que o déficit de profissionais e a falta de estrutura deixam o sistema à beira do colapso.
Divergências nos dados estaduais
O Conedh-MG apontou que os relatórios oficiais enviados pelo governo apresentam inconsistências. Nos anos de 2024 e 2025, houve divergência entre a soma total divulgada e a apuração individualizada por cada unidade. Em 2024, calcula-se que o total real de mortes sob a tutela do Estado ficou entre 275 e 277. Em 2025, a oscilação foi de 310 a 312 óbitos. Para 2026, os dados fecharam sem discrepâncias até o dia 15 de março, somando 56 mortes no ano.
A alta taxa de suicídios dentro das prisões também chama a atenção das entidades de direitos humanos. Somente em 2025, foram registrados 54 suicídios dentro das celas em Minas Gerais, superando os casos de mortes provocadas por terceiros (homicídios), que somaram 32 ocorrências.
Procurada para comentar os dados e as condições específicas das unidades de Ribeirão das Neves, a Sejusp-MG não detalhou as medidas de intervenção até o fechamento desta reportagem.

