O modelo de transporte coletivo municipal de Ribeirão das Neves passa por um silencioso, mas definitivo, processo de desestruturação de suas diretrizes originais. Lançado com promessas de modernização em fevereiro de 2019, o Sistema Integrado de Transporte (SIT Neves) operava sob a lógica da troncalização: linhas alimentadoras traziam os passageiros dos bairros até uma linha principal, que ligava a Estação Fórum ao Lagoinha. Sete anos depois, os sucessivos decretos de alteração de itinerários e o retorno de linhas diretas apontam para o recuo definitivo da Prefeitura em relação ao plano inicial.
Quando o SIT Neves entrou em vigor, a Secretaria Municipal de Segurança, Trânsito e Transporte (SMST) defendia que o modelo traria maior fluidez ao trânsito e otimizaria a frota. A contrapartida exigida das concessionárias incluía ônibus com ar-condicionado, Wi-Fi, suspensão a ar e painéis digitais com o tempo de espera nos abrigos.
No entanto, a transição para o sistema integrado gerou forte rejeição popular imediata. Usuários das regiões de Justinópolis, Veneza e do Centro passaram a relatar atrasos crônicos, plataformas de transbordo saturadas e um aumento significativo no tempo total de viagem para trajetos curtos dentro do próprio município. A obrigação de realizar duas ou mais baldeações diárias para percorrer distâncias que antes eram cobertas por uma única linha direta foi o principal estopim dos protestos comunitários.
O recuo estratégico e o retorno ao modelo antigo
Pressionada por audiências públicas e pela insatisfação comercial nos bairros, a administração municipal iniciou um processo de flexibilização das regras do edital. O desenho original de "uma grande linha espinha dorsal" começou a ruir à medida que o Executivo se viu obrigado a recriar linhas diretas ponto a ponto para atender comunidades que ficaram isoladas ou que viam o tempo de deslocamento inviabilizar a rotina de trabalho.
Especialistas em mobilidade urbana apontam que o erro do SIT Neves foi tentar replicar a lógica de corredores estruturados (como o Move na capital) em uma cidade que carecia de faixas exclusivas, terminais de grande porte e que possui uma topografia acidentada com vias arteriais historicamente estranguladas, como a Avenida Denise Cristina da Rocha.
Atualmente, o cenário do transporte municipal em Neves é considerado por lideranças comunitárias um "sistema híbrido improvisado". Enquanto o conceito de integração tarifária pelo Cartão Ótimo permanece, a configuração geográfica das linhas retornou gradativamente ao modelo anterior a 2019.
Outro ponto que distancia o transporte atual das promessas de sete anos atrás é a qualidade do serviço entregue. Os painéis digitais informativos nos pontos de ônibus não se consolidaram em toda a cidade e as reclamações sobre a manutenção da frota e o descumprimento de horários continuam liderando os canais de ouvidoria.
Com reajustes tarifários anuais que colocam a passagem municipal de Ribeirão das Neves entre as mais caras da Região Metropolitana de Belo Horizonte em termos proporcionais, o passageiro nevense hoje paga o preço de um sistema de alto rendimento, mas circula em uma rede que precisou abrir mão de sua própria identidade técnica para não colapsar totalmente.

