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Maria do Carmo Freitas

Foi num sábado. Bonequinhas enfileiradas na porta de um depósito fechado, no centro da cidade, me chamaram a atenção. Ao lado delas, uma pequena mulher, de olhar meigo ou quem sabe triste, nos seus trinta anos. A cena à distância não era incomum, mas eu fiquei incomodada. Ao me aproximar, a curiosidade do outro lado da rua, se transformou em encantamento.

A mulher estava sentada e ao seu lado, bonequinhas de panos, rostos perfeitos e, lindamente, vestidas. Havia também uma caixa, que de imediato, pensei guardar mais bonecas. Mas, para minha surpresa, dentro da caixa havia uma menininha, ou melhor, uma bonequinha de verdade: olhos grandes, cabelos pretinhos e, que, ao olhar para mim, sorriu. Aí, eu quis saber da mãe se ela não achava ruim ficar ali. A mãe disse que a menininha nunca chorava, que era um doce e que ela a trazia porque não tinha com quem deixar. Que o dinheiro das vendas das bonecas, confeccionadas por ela, era vital para sua família, que passava por necessidade, e que o marido estava desempregado.

Meus olhos não desgrudavam da bonequinha e ela sempre me correspondia com um sorriso. Peguei-lhe as mãozinhas e dei-lhe um beijo. Sentido-me na obrigação de ajudar aquela mulher e a sua filhinha, comprei uma boneca bem colorida e que parecesse com a de verdade. Mas, a minha vontade era levar a bonequinha da caixa para mim.

Nos sábados seguintes, e, durante meses, os meus olhos não deixavam de apreciar aquelas duas figuras que me encantava. Até que um sábado elas não estavam mais lá. Confesso que senti falta, mas não consegui descobrir onde moravam. Pensei que a família pudesse ter mudado da cidade ou quem sabe, o marido arranjara emprego e a mulher não precisava mais vender bonecas na rua. Porém, aquela cena ficou gravada no meu olhar e me perseguia vida afora.

Os anos se passaram e eu nunca mais vi ou tive notícias daquela mulher e da sua filhinha. Um dia, fui escalada para entrevistar uma artesã, que tinha recebido um prêmio sobre presépios. Todos comentavam que o seu trabalho era maravilhoso e ela tinha o seu próprio ateliê. Ao vê-la, imediatamente a reconheci. É ela. A mulher das bonequinhas. Estava mais velha, mais forte, entretanto, a calma e olhar eram inconfundíveis. Eu fiquei emocionada e foi quando relembrei o seu nome. Naqueles sábados, o seu nome e o da filha eram tão importantes para mim. Então ela me disse: "Estou trabalhando aqui na Secretaria e faço artesanato" e me convidou para ver. "Lindo, muito lindo! E a sua filha?" "A Bianca? Ela tem oito anos e gosta de ler e escrever poemas".

Dias depois pude rever Bianca. Que vivacidade! Os olhos alegres e espertos eram os mesmos.

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"A política é uma das formas mais elevadas da caridade, porque procura o bem comum". (Papa Francisco)

 

O princípio da democracia nasceu na Grécia antiga, quando, em praça pública, chamada Ágora, o povo era incentivado a participar da vida coletiva, discutindo seus problemas e ao mesmo tempo, procurando uma solução. Essa era uma forma de fazer política.

Então, desde os tempos antigos, os seres humanos buscam a melhor maneira de viver em sociedade e, com a própria evolução do homem, a sociedade se desenvolveu, superando os muitos desafios. Isso para que a própria vida humana continuasse a existir no planeta.

Aristóteles, filósofo grego, afirmou que o ser humano é um animal político, justamente por viver em sociedade, e não é uma escolha humana, é a única possível. Por isso, é característica marcante do ser humano conviver em grupos, tendo como fundamento a cidadania, a dignidade da pessoa humana e a construção de uma sociedade livre, participativa, justa, igualitária e solidária.

Hoje, o voto é uma das formas de se vivenciar a democracia. Ele representa a conquista de um espaço de prática coletiva da democracia. No Brasil, ainda que a qualidade da política praticada esteja marcada por maus políticos e pela corrupção, o voto, é a força da sociedade. É durante as eleições, que, oficialmente, o cidadão tem voz, sendo este o momento sublime da democracia.

Assim, ainda que a democracia no Brasil dê sinal de retrocesso e o processo eleitoral seja um modelo esgotado, pois grande parte dos brasileiros não consegue aceitar a política como um bem coletivo e as justificativas para tal são muitas: partidos em excesso e que não representam ninguém, a não ser os interesses de quem os dirige. Além disso, quando chegam ao poder, grande parte dos políticos não pensam no bem comum, mas sim em resolver os seus problemas e do seu grupo. Tudo isso junto e misturado, vão tornando a prática política inócua, desacreditada, fazendo da cena política, um teatro pobre e sinistro.

Mas, ainda assim, a política é o meio de valorização do ser humano, e as eleições são a única maneira disponível para que o cidadão lute e reencontre o respeito, a dignidade e os verdadeiros propósitos por parte de quem ele elegeu.  É também durante o processo eleitoral que as pessoas têm voz para falar dos seus problemas e do seu dia a dia sofrido e desigual.  Por isso, sem dúvida, as eleições municipais tornam os cidadãos mais conscientes, críticos, exigentes, pois eles acreditam que, com as suas participações, suas necessidades cotidianas serão atendidas.

É neste cenário de descrédito político que se desenrolaram as eleições em todos os municípios brasileiros e os resultados  deixaram recados importantes, sinalizando que houve mudanças no que tange a percepção da população em relação ao o que ela quer, ou não quer, da política e dos políticos. Vale lembrar que no país, 25 milhões de brasileiros não foram às urnas, o que representa 17,58% do eleitorado.

Em Ribeirão das Neves não foi diferente. O primeiro recado sinaliza que o cidadão nevense quer mudança no modelo de gestão, para isso acredita no efetivo realinhamento da vida política do município, o que significa dizer, mais investimentos nos serviços essenciais, que venham de fato alavancar o seu desenvolvimento político, econômico e social e, conseqüentemente, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Vale lembrar que o exercício da democracia pelos cidadãos, se concretiza quando existe a proximidade direta da população na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano, aliados aos investimentos em políticas públicas nas áreas de cultura e de lazer.

Outro recado dado diz respeito à ruptura da população, quanto à subserviência aos deputados chamados majoritários e seus agentes de campanha. Esse fato sinaliza que os 160.707 mil eleitores de Ribeirão das Neves rejeitaram os políticos de carreira, que, na maioria das vezes, introduzem na máquina pública, muitos protegidos despreparados e desqualificados, mas que lhes garantem lealdade. Isso cria barreiras tão eficientes que os moradores ao serem blindados, desistem de suas reivindicações. Vale ressaltar que a troca de favores condiciona a construção da cidadania, pois conspira contra o bem-estar coletivo.

Enfim, o número elevado de pessoas que se abstiveram de votar não pode de forma alguma ser ignorado pelos eleitos. Num total de 35.454 eleitores, equivalente a 18,06% dos votos válidos, além dos 29.515 eleitores que preferiram anular o voto. As propostas dos candidatos não convenceram estes cidadãos.

Assim, o professor Juninho Martins (PSC), eleito para a Prefeitura de Ribeirão das Neves, com 68.656 votos, equivalente a 58,49% dos votos válidos, terá que vencer muitos desafios, principalmente em mostrar serviços não só para quem lhe deu voto. Espera-se também a reinvenção por uma cidade melhor e respostas urgentes dos eleitos, às necessidades da população por serviços dignos de saúde, educação, segurança, transporte e mobilidade.  É necessária a busca de investimentos para que o crescimento do município seja impulsionado de fato, melhorando a qualidade de vida da população.

Para isso, espera-se que o prefeito eleito tenha mais diálogo com a sociedade, nos seus diversos setores, seja pela causa dos menos favorecidos e dos de melhor poder econômico. Ele vai gestar para todos.  O verbo agora é escutar. Ele é a ferramenta do político moderno, que aprende com o povo, administra com o povo e, também sabe ouvir os reclames do povo, lembrando que os eleitos devem ter no currículo os princípios humanitários para tratar questões sociais e, principalmente, honestidade para administrar o dinheiro público. Ter, acima de tudo, um olhar à erradicação da pobreza, numa cidade com mais de 300 mil habitantes, fragmentada e sem identidade, mas que tem um povo hospitaleiro e pacífico.

Aos vereadores, cabe legislar com inteligência, fiscalizar com isenção, propor em favor do interesse coletivo, lembrando que o Legislativo Municipal terá uma renovação de 70%. Espera-se que eles tenham mais transparência em suas reivindicações e ações. Mais diálogo com as comunidades que os elegeram. Vereador que só pede emprego no Executivo para apadrinhados pratica uma política viciosa e perversa.

Por fim, a cada eleição, renascem os sonhos e a esperança de mudanças por uma cidade melhor.  A esperança de se ver mudanças na condução da coisa pública, esperança de ver mais seriedade e competência por parte dos eleitos e, principalmente, que eles assumam de verdade o compromisso  com  a coletividade e não com os seus próprios interesses.

Os sonhos são muitos, mas principalmente, o sonho  por uma cidade onde todo mundo possa existir, uma cidade mais cidadã. Portanto, por uma Ribeirão das Neves infinitamente melhor.

 

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Eu ainda não tinha muito interesse pelo futebol, quando Cruyff atingiu o apogeu, sendo aclamado pela imprensa e, grandemente festejado pelos amantes do futebol, entretanto, tive a curiosidade em conhecer o jogador que chamavam de gênio. Rapaz magro, cabeludo, 26 anos e que regia uma orquestra afinada: a seleção Holandesa também chamada de carrossel.

As matérias jornalísticas falavam que Cruyff não podia ser rotulado de atacante, de meia ou de volante, pois ele era tudo isso e um pouco mais. Era sempre onipresente nas ações ofensivas, fazia passes certeiros e perfeito nas finalizações, além de exercer em campo uma liderança exemplar.

Assim, tomei conhecimento desse jogador professor. Sim, Cruyff ensinou um estilo revolucionário – um jogo em que a ocupação de espaços era total. O Ajax e a seleção Holandesa jogavam assim.  Adversários sendo cercados por cinco, seis, sete jogadores. Esta visão inovadora ele levou para sua vida de treinador.

Cruyff, também chamado de holandês voador, foi maestro de uma das mais lendárias seleções de todos os tempos: A Holanda de 1974, que, em alusão ao filme do cineasta Stanley Kubrik, foi apelidada de "Laranja Mecânica". Vale lembrar que a Holanda deixou um legado que inspira até hoje times como o Barcelona e o Bayern de Monique.

Cruyff partiu dia 24 de março, aos 68 anos, numa batalha perdida para um câncer de pulmão, e a comoção tomou conta do mundo. Os principais jornais do planeta estamparam manchetes expressando o peso da sua perda para o esporte. Para o L'Equipe, respeitado diário francês, Johan Cruyff era como os Beatles ou Rolling Stones, o que vale dizer, um superstar de sua era, um artista dos gramados. O holandês Telegraf mostrou vizinhos do bairro onde ele cresceu em Amsterdã e, onde nas peladas de rua, já mostrava talento, ficando conhecido como “Jopie.” O Olé, principal jornal esportivo da Argentina, escreveu: "Muito Obrigado Cruyff", simplificando de maneira criativa a importância dele para o futebol mundial e, principalmente, o vazio que deixa a sua morte, ficando a certeza que Cruyff é um dos maiores da  história do mundo futebolístico, uma lenda.

O certo é que a forma de como Cruyff foi reverenciado, é apenas parte da amostra do que ele representava para o esporte. Jogador com visão moderna, de passes rápidos e precisos,  talento de sobra e  fome de gol. Não tinha só técnica, mas também futebol arte, ou seja, o futebol em sua mais pura essência: a incessante busca pelo gol. Jogador que impactou o mundo como só os grandes o faz: Pelé, Garrincha, Nádia Comaneci …

Para quem não viu Cruyff jogar ou ainda para os nostálgicos do bom futebol, o conhecimento e a saudade podem ser alimentadas através de vídeos, reportagem e biografias desse que foi um magnífico maestro: Johan Cruyff.

 

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Naquele 12 de dezembro de 1953, quando se emancipou politicamente, Ribeirão das Neves era um distrito com poucos moradores. A realidade era composta do que estava à sua volta, não havia imagem e a difusão dos acontecimentos era falha. Assim, o registro que foi para história é do texto que criou o município e de fotografias de um pequeno grupo político comemorando a emancipação, tudo de forma simples como convinha à época e, ainda que abrigasse em seu solo a Penitenciária Agrícola de Neves, a cidade era pacata e nada acontecia que merecesse a vigília da grande imprensa.

Hoje, Ribeirão das Neves vive no seu dia a dia a chamada "dimensão da informação" e tem permanentemente holofotes voltados para si. Veículos de comunicação mostram exaustivamente os problemas enfrentados pela cidade, explorando também a fragilidade e vulnerabilidade dos moradores. Isso porque é Ribeirão das Neves vive todas as contradições de uma cidade grande, que cresceu sem planejamento e que, ao longo de décadas, teve o crescimento econômico e social estagnado. Ao fazer a travessia, teve modificado os seus ritos religiosos e políticos. Teve ignorados os seus costumes, crenças e tradições. Hoje, está tudo junto e misturado, mas o sentimento de pertencimento não existe para maioria da população.

No campo da política, por ter um eleitorado significativo, é palco para caçadores de votos e muitos oportunistas de plantão, que visitam o município só em tempo de eleição.

Mas, ao comemorar 61 anos de emancipação, Ribeirão das Neves tem a seu favor as três esferas políticas, federal, estadual e municipal, sob o comando de um mesmo partido. Portanto, está numa posição privilegiada, fato que reacende a esperança de dias melhores para a população. É a chance que o município tem de alavancar o tão sonhado desenvolvimento, corrigindo as injustiças sociais e o atraso político.

Essa situação cria expectativas de mudanças e um olhar mais otimista, de que "agora" a transformação pode acontecer. É o momento de deixar para trás décadas de frustrações e exploração política. Mudar o cenário de loteamentos irregulares, ocupados pela população de baixa renda e que hoje cobra uma vida com mais dignidade.

Por outro lado, é hora de lembrar que aqui é o "espaço carcerário" imposto pelo Governo do Estado. E que esse Estado deve ao município investimentos reais e não ações paliativas e politiqueiras. A implantação dos presídios não foi acompanhada de contrapartidas e de investimentos relevantes que melhorassem a qualidade de vida dos seus moradores. Por isso, a demanda por investimentos em áreas como saúde, transportes e empregabilidade continua sendo preponderante para a população de mais de 300 mil habitantes.

É hora de rejeitar o município como sendo só um território de muitos votos e também de muitos problemas. De indicativos sociais tão explorados pela mídia e políticos oportunistas.

Vale lembrar que o Centro Industrial de Ribeirão das Neves - CIRIN - é um dos mais bem localizados da Região Metropolitana de Belo Horizonte. É ligado à BR-040, corredor de escoamento de mercadorias, interligado também  aos grandes centros industriais e de consumo, como Belo Horizonte, Contagem, Betim e Sete Lagoas.

Vale ressaltar também que, nos últimos três anos, o Governo Federal dispensou considerável atenção ao município, como as obras do Plano de Aceleração do Crescimento – PAC – que mudaram o perfil de muitos bairros, além de programas sociais que beneficiam famílias de baixa renda, como o Bolsa Família, CRAS, entre outros.  Além disso, a presidente Dilma Rousseff teve uma votação expressiva em Ribeirão das Neves, sendo ela sabedora de todas as carências da cidade.

Portanto, essa é uma oportunidade ímpar que o poder púbico tem de tornar Ribeirão das Neves uma cidade próspera e infinitamente melhor para se viver.

Chega de estigmas, de apontar a pobreza e a miséria dos moradores do município como castigo. Ribeirão das Neves é berço para uma parcela significativa de nevenses. É também teto para mineiros oriundos de muitos solos das Gerais. Este chão dos que nasceram e dos que o município adotou.

É hora de vencer os desafios. É hora de vontade política.

 

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A propaganda eleitoral no Brasil me remete a um teatro. Mas, um teatro de texto superficial inconsequente, antipedagógico, na qual os atores não passam nenhuma verdade.
Entretanto, ela me faz lembrar do  "teatro do absurdo",  criado por Samuel Beckett, escritor, ensaísta e dramaturgo irlandês, prêmio Nobel de Literatura em 1969, considerado um dos mais importantes dramaturgos do mundo, sendo referência internacional no teatro e na Literatura do século XX.

O "teatro do absurdo" com uma linguagem reflexiva e revolucionária, trouxe para o palco a crise espiritual de uma humanidade sem apoio aos sistemas metafísicos. Abordou a apoteose da solidão humana e sua insignificância. Tudo sem vislumbrar a esperança.

Na peça "Esperando Godot", Beckett faz uma análise da condição humana, colocando o ser humano em xeque-mate, e o que poderia parecer absurdo, fica angustiantemente normal. A  sua intenção não era contar uma estória e nem que a plateia voltasse satisfeita para casa, o que Beckett  pretendia, era revelar que a vida não era fácil e bela como muitas pessoas fingiam ser. Ele estava preocupado em fazê-las refletir/pensar sobre a condição humana e, como resultado, operar mudanças nas mesmas.

"Esperando Godot" retrata ironicamente a espera, apenas a espera interminal por alguém ou algo que nunca chega. São cinco personagens em cena, a peça começa e termina da mesma maneira, que comparando a nossa vida, pode significar que o tempo passa, mas as pessoas esperam, esperam que algo aconteça e transforme suas vidas.

A peça foi escrita em 1932 e discorre sobre a miséria do homem e do absurdo da sua condição, criando suspense e tensão dramática, como na nossa vida. É a visão trágica do homem e do universo.

O caráter inovador de Esperando Godot é bem atual, pois revela a perda de alguns valores éticos e morais do mundo pós-moderno. Expõe o modo de vida e de uma sociedade que se esvai a cada momento. O homem contemporâneo tem a identidade estilhaçada e, sem aparente destino, mas que busca uma realização. Entretanto, esse buscar se escoa no absurdo do cotidiano.

Enfim, o "teatro do absurdo" de Samuel Beckett, apresenta um humor pessimista e cáustico, mas revelador, pedagógico e filosófico e, sobretudo, verdadeiro.

É possível identificar algo em comum entre a peça "Esperando Godot" e a propaganda eleitoral brasileira? Sim. Ambas provocam riso. A peça, apesar da abordagem trágica, arrancava risada da plateia. A propaganda eleitoral tem também se configurado num "teatro do absurdo ao avesso". Não ensina nada e não leva a nada. O palco é escuro, sujo e nada inteligente. As peças são mal redigidas e as cenas mal dirigidas e interpretadas. O ensaio improvisado mostra o desfile de caras e bocas de personagens que não convencem. Os diálogos são recheados de promessas, de mentiras, de loucuras e de candidatos que querem apenas se arrumar. Basta ouvir dos atores e suas propostas, conhecer seus acordos e alianças para se concluir sobre o "vazio" das candidaturas e constatar que a mudança política é uma quimera.

Este é o palco da política brasileira. Há muito a plateia não prestigia, nem aplaude em cena aberta, porque o que sobrou foi desalento e decepção. O medo vence a esperança.

Para quem acompanha a propaganda pela TV e rádio, certamente tem noção de como será o nosso próximo Congresso, Câmara e Assembleias. A sensação é que, se houver renovação, pouco ou nada mudará. O funcionamento dessas casas está em descrédito. O brasileiro acredita que tudo será como antes: privilégios, corrupção, gastos superfaturados e impunidade.

Por isso, o eleitorado está tão distante e desinteressado do processo eleitoral, sinalizando que ele já deu o que tinha que dar.

Dessa forma, vale dizer que a representação política no Brasil precisa ser recriada, reinventada ou revitalizada, e, ainda que marqueteiros criem cenas mirabolantes para conquistar a simpatia da população, o discurso está desgastado, fragmentado e o eleitor percebeu que suas reivindicações estão em 2º plano, pois acabada a eleição somente os acordos formados no decorrer do processo eleitoral, terão importância.

Diante desse cenário que não convence, está difícil suscitar esperança no eleitor. O sentimento de impotência diante do “mundo da política” é entendido como sendo ele incapaz de promover as transformações que venham beneficiar a sociedade com políticas emancipatórias e não só compensatórias. Por outro lado, o  eleitor tem percepção que o seu voto vale muito pouco. E, é ainda com o sentimento da impotência que muitos eleitores se preparam para votar em branco ou nulo, o que pode ser um protesto consciente.

Porém, neste 4 dias que antecedem às eleições de 5 de outubro, vale lembrar as manifestações de junho de 2013, quando expressiva parcela da população desfilou a sua indignação, passando por cima de governo, partidos políticos e imprensa. O clamor das ruas deixou um recado: é necessário mudar padrões de gestão, melhorando significativamente os serviços públicos, com destaque para a saúde, educação, segurança e mobilidade urbana. É preciso dar um basta aos escândalos que flagram atores políticos nos mais diversos palcos da corrupção. É imprescindível realizar a reforma política, acabando com os discursos partidários, que pregam mudanças, para ficar tudo como está.

O certo é que estamos às portas de mais uma eleição da qual toda nação dependerá nos próximos quatro anos. E como será o país a partir de 2015 ? Que políticas serão implementadas para vencer desafios enormes como a crise econômica, o desemprego, a redução de benefícios sociais e a terrível inflação ? De acordo com especialistas, o próximo presidente, dificilmente vai alterar programas como o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e o PROUNI. Estes programas estão nos braços da sociedade brasileira que se consolidaram como política pública eficaz para os mais pobres.

Enfim, este é um momento importante. É hora de eleger candidatos capazes de acabar com a corrupção e os privilégios em todos os níveis da gestão pública. E, mesmo com o sentimento de descrença, se você tem um candidato com perfil de trabalho, compromisso, competência e credibilidade. Vote nele. Mas acompanhe a sua atuação, cobre todos os dias o que ele prometeu e depois de eleito, não precisa bater palmas, nem jogar tapetes para ele passar. Ele também será um servidor público e foi eleito para trabalhar.

Porém, se a esperança em dias melhores não vencer o desalento, use a política da compensação. Apegue-se as artes, a música, a poesia. Elas são capazes de nos emocionar e nos alegrar. Aprecie um quadro de Frida Kahlo, leia a poesia de Adélia Prado, escute a música de Cazuza. Ele poeticamente pontou: "Decidi não ficar mais triste. Certas coisas não valem minha dor." Ou, ainda, vá ao teatro e se deleite de rir com a peça "Acredite, Um Espirito Baixou em Mim". Mas vote!

 

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“Se sou o Ribeirão, não sei
Sei que ele ecoa em mim.”
(Danilo Horta)

O escritor Roland Barthes em a “Aventura Semiológica”, afirma que a cidade é um discurso, e esse discurso é verdadeiramente uma linguagem: “a cidade fala aos seus habitantes, nós falamos à nossa cidade”.

Para a pesquisadora Valéria Aparecida S. Machado, a Literatura pela capacidade de promover o descolamento de elementos para a construção de novos significados opera como uma leitura que confere “um sentido e uma função” aos cenários da cidade, ordenando o real e lhe dando um valor.

Também a ensaísta Lucrécia D' Aléssio Ferrara, no livro “Olhar Periférico”, pontua: “por sobre as causas e consequências do fenômeno urbano estão as imagens da cidade: ruas avenidas, praças, coretos”, apontando para o fato de que a cidade se dá a ler nessas imagens e signos que a constituem, podendo ser transfigurada e reconstruída numa diversidade de significados.

Dessa forma, a literatura, na tentativa de suscitar uma reflexão sobre os modos como o homem se relaciona com o meio urbano, pontua que é neste espaço que se pode construir significados novos, mas sempre referenciando o passado.

No contexto da modernidade, como situar Ribeirão das Neves baseado nos conceitos literários e antropológicos? Como seus habitantes a vivenciam? Que imagens são guardadas na memória de seus habitantes. Que olhar dar ao município?

As explicações do arquiteto e artista plástico, Almandrade, sobre “cidade”, apontam caminhos para um melhor entendimento. Segundo Almandrade, estamos sempre a falar da paisagem urbana a partir de nossas relações com as contradições sociais, com o passado que a memória não esqueceu ou com os conflitos e harmonias que fazem o presente. E é sobre esse ângulo que se encontra uma causa, uma explicação para as imagens onde a cidade se deixa perceber.

Ainda segundo Almandrade, é na forma de imagens que a cidade ganha uma existência concreta na memória de seus habitantes, e que também documenta as mensagens do tempo. Isso porque sem as imagens que habitam a sua própria memória, a cidade estaria perdida num fragmento do tempo. Sem recordações o presente não teria continuidade.

Vale dizer que é nas lembranças e recordações que a cidade tece a sua história e busca, na infância, os antecedentes de sua contemporaneidade. Assim, as imagens que armazenam ou evocam a memória, é um túnel que nos leva a revisitar o passado, dentro de um contexto que deverá nos ajudar a dar sentido ao presente e do qual vamos compreender o passado.

Pode-se concluir, então, que nos vários tempos vividos de uma cidade, estão encenados as imagens de seu espaço físico e os significados de seus núcleos históricos. Enfim, é perceber diante de tudo isso a cidade como um espetáculo de imagens e metáforas.

Origem e espaço urbanístico de Ribeirão das Neves

Para falar de Ribeirão das Neves e contextualizá-la como município metropolitano, é preciso sinalizar as interferências sofridas nas suas relações espaciais e sociais, e que fizeram do seu espaço urbano um lugar de contradições, entrevistos nas suas imagens e signos.

Ainda hoje, não é difícil constatar que o seu espaço não deixa de conter em si um projeto de cunho político e para entender melhor as relações de poder que medem forças no município, se faz necessário apontar a memória como o lugar do entendimento e também de resistência a tudo de bom e ruim que a cidade vivencia. Ela, a memória, é o instrumento que serve para balizar as certezas e apontar as dívidas advindas de anos de desmandos políticos.

Para situar Ribeirão das Neves no Século XXI, e entender todas as suas carências e contradições, é preciso, antes de tudo, explicitar a sua origem e as mudanças ocorridas em seu território, ao longo de décadas. Hoje, a cidadezinha do interior só está na memória e em fotografias em branco e preto. O cenário atual é de um gigante com mais de 300 mil habitantes, que sangra por mais investimentos por parte dos governos federal e estadual, que venham alavancar o seu desenvolvimento econômico e social, melhorando, significativamente, a qualidade de vida dos seus moradores.

O Povoado de Neves começou em 1923, e as referências são uma rua, uma igreja, uma vendinha, um grupo escolar e poucos moradores. Em 1927, o Estado desapropriou algumas fazendas, entre elas parte da Fazenda de Neves, onde foi construída a Penitenciária Agrícola de Neves (PAN). Em 1938, a PAN foi inaugurada e no seu entorno começou o primeiro núcleo populacional da cidade. Considerável parte dessa população urbana vivia de empregos da PAN.

Lentamente, depois de pertencer aos municípios de Contagem, Betim e Pedro Leopoldo, Ribeirão das Neves, em 12 de dezembro de 1953, fez a travessia de distrito para cidade. O Estado foi construindo outras unidades prisionais no município, confirmando a sua intenção de transformar o município em um “espaço carcerário.” Entretanto, as implantações dos presídios não foram acompanhadas de investimentos relevantes que melhorassem a qualidade de vida da população, pois os serviços essenciais como saúde, educação, infraestrutura e saneamento, habitação e geração de renda, continuam precários.

É na década de 70 que Ribeirão das Neves entra no cenário metropolitano, não exclusivamente como “espaço carcerário”, mas também sob o codinome “espaço popular.” Isso porque passou a ser palco da especulação imobiliária, que abriu na cidade vários loteamentos irregulares, em sua maioria, ocupados por população de baixa renda.

A falta de um Plano Diretor (PD) que norteasse a ocupação e uso do solo urbano, acarretou o inchaço populacional, transformando o município num dos mais pobres do Estado de Minas Gerais, apresentando um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) comparado aos municípios do Vale do Jequitinhonha. Assim, Ribeirão das Neves passou a conviver com uma gritante injustiça social, recebendo, concomitantemente, os estigmas de “cidade presídio” e “cidade-dormitório”. Dessa forma, o quadro de carência, miséria e exclusão, consequência da grande concentração populacional e da falta de recursos públicos para atender as inúmeras demandas no que tange aos serviços essenciais, ilustra o dia a dia de uma massa de trabalhadores sofrida e desinformada e que grita por uma vida com mais dignidade.

Paola Rogêdo Campos, doutoranda em Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em sua tese sobre Ribeirão das Neves, afirma que o município é um aglomerado urbano (Centro, Veneza e Justinópolis). Segundo Paola, a relação espacial entre as regiões é bastante tênue e desconexa, o que evidência o processo desigual da ocupação territorial. A presença de grandes vazios e as conexões com o entorno configuram, segundo Paola, uma articulação fragmentada do espaço e, por isso, ela chama o seu estudo de "Arquipélago de Ribeirão das Neves", ou seja, a metáfora de um "arquipélago" é a comparação de um espaço fragmentado, desarticulado e sem identidade.

O certo, porém, é que, desde a criação do município, os processos decisórios ainda são comandados e coordenados pelo Estado, “de cima para baixo” e “de fora para dentro”, como instâncias de poder superior separadas da política local. Vale dizer, portanto, que há forças políticas em conflito: de um lado um “bairro popular” e, de outro, uma originária “cidade-presídio”. Enfim, constatar essa afirmação no dia a dia do município não é um blefe. Ribeirão das Neves é articulado e comandado de fora pelo governo do Estado de Minas Gerais, que era - e ainda é - o grande organizador do espaço municipal.

Aniversário

“Se sou o Ribeirão, não sei
Sei que o levo comigo
E deixá-lo não consigo”.

Completar 60 anos de Emancipação Política é tão emblemático para Ribeirão das Neves como são também os versos do poeta nevense, Danilo Horta, que traduziu em poesia o sentimento de pertencimento, desvendando através da memória, o modo único de viver de uma cidade.

O Ribeirão que nasce no morro do Anil e que passa cortando a cidade, é mais que a origem do nome “Ribeirão das Neves”.  O “Ribeirão” é um símbolo. A história que dele emerge traz um emaranhado de significados e saudades e, principalmente, porque através dele se busca uma identidade. Uma identidade que estabeleça relações entre o sujeito do “agora” e as histórias que a cidade conta.

Por isso, ainda que os conflitos oriundos das profundas transformações no espaço urbano de Ribeirão das Neves, e que impediram a preservação da memória, o respeito às tradições, em diferentes tempos da cidade, ao comemorar o seu aniversário, é pertinente ter um olhar pelos seus significados, desvendando não só a sua geografia, mas também a sua alma, o sabor e as cores. Fazer uma viagem sentimental às ruas, bairros, enfim, aos espaços que cantam a sua história, lembrando sempre que, mesmo fragmentada, Ribeirão das Neves traz no nome o elemento primordial do seu nascimento, e ele significa hoje não só saudade, mas também esperança, pertencimento e a busca pelo progresso.

E por falar em memória, deve-se lembrar da “Epifania do 1º Ribeirando”, festa que aconteceu no dia 12 de dezembro de 1999, quando o município completou 46 anos de Emancipação Política. O 1º Ribeirando foi uma visita à nossa memória: a cidade, as ruas, as pessoas com quem se conviveu, os amigos, os parentes, os antepassados, as festas, o modo de viver dos moradores, os causos... Enfim, ao chamamento da saudade. Tudo sendo revisitado: os caminhos extintos pelo tempo, as sessões de cinema reprisadas na lembrança, os jardins em cores, os sons e aromas de uma “Esplanada”, a algazarra dos tico-ticos, os ribeirões despoluídos, as horas dançantes na casa dos amigos, a religiosidade, a amizade, o silêncio, a simplicidade... O 1º Ribeirando reverenciou a história de Ribeirão das Neves e abriu caminhos firmes para que o presente seja um permanente compromisso com o futuro, ficando, também, a certeza que amar o chão onde se nasce é fator preponderante para a construção da cidade e de sua identidade. O 1º Ribeirando foi o encontro de nevenses com a sua identidade, e que deixou marcas indeléveis. Quantos hoje sonham com o 2º, 3º Ribeirando.

Não podemos esquecer: somos ribeirão, terra, praça, prédios, escolas, igrejas e mundo. Existe em nós uma gigante cidade interiorana, mas, principalmente, um “Ribeirão Simbólico.”

Fica aqui o carinho e o abraço a Tânia Mara Carlos de Oliveira, então primeira dama do município, idealizadora que tão bem conduziu o 1º Ribeirando, festa que permitiu a diferentes gerações da cidade uma participação efetiva na organização da festa, oportunizando a todos o conhecimento da sua história.

 

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