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Maria do Carmo Freitas

"A política é uma das formas mais elevadas da caridade, porque procura o bem comum". (Papa Francisco)

 

O princípio da democracia nasceu na Grécia antiga, quando, em praça pública, chamada Ágora, o povo era incentivado a participar da vida coletiva, discutindo seus problemas e ao mesmo tempo, procurando uma solução. Essa era uma forma de fazer política.

Então, desde os tempos antigos, os seres humanos buscam a melhor maneira de viver em sociedade e, com a própria evolução do homem, a sociedade se desenvolveu, superando os muitos desafios. Isso para que a própria vida humana continuasse a existir no planeta.

Aristóteles, filósofo grego, afirmou que o ser humano é um animal político, justamente por viver em sociedade, e não é uma escolha humana, é a única possível. Por isso, é característica marcante do ser humano conviver em grupos, tendo como fundamento a cidadania, a dignidade da pessoa humana e a construção de uma sociedade livre, participativa, justa, igualitária e solidária.

Hoje, o voto é uma das formas de se vivenciar a democracia. Ele representa a conquista de um espaço de prática coletiva da democracia. No Brasil, ainda que a qualidade da política praticada esteja marcada por maus políticos e pela corrupção, o voto, é a força da sociedade. É durante as eleições, que, oficialmente, o cidadão tem voz, sendo este o momento sublime da democracia.

Assim, ainda que a democracia no Brasil dê sinal de retrocesso e o processo eleitoral seja um modelo esgotado, pois grande parte dos brasileiros não consegue aceitar a política como um bem coletivo e as justificativas para tal são muitas: partidos em excesso e que não representam ninguém, a não ser os interesses de quem os dirige. Além disso, quando chegam ao poder, grande parte dos políticos não pensam no bem comum, mas sim em resolver os seus problemas e do seu grupo. Tudo isso junto e misturado, vão tornando a prática política inócua, desacreditada, fazendo da cena política, um teatro pobre e sinistro.

Mas, ainda assim, a política é o meio de valorização do ser humano, e as eleições são a única maneira disponível para que o cidadão lute e reencontre o respeito, a dignidade e os verdadeiros propósitos por parte de quem ele elegeu.  É também durante o processo eleitoral que as pessoas têm voz para falar dos seus problemas e do seu dia a dia sofrido e desigual.  Por isso, sem dúvida, as eleições municipais tornam os cidadãos mais conscientes, críticos, exigentes, pois eles acreditam que, com as suas participações, suas necessidades cotidianas serão atendidas.

É neste cenário de descrédito político que se desenrolaram as eleições em todos os municípios brasileiros e os resultados  deixaram recados importantes, sinalizando que houve mudanças no que tange a percepção da população em relação ao o que ela quer, ou não quer, da política e dos políticos. Vale lembrar que no país, 25 milhões de brasileiros não foram às urnas, o que representa 17,58% do eleitorado.

Em Ribeirão das Neves não foi diferente. O primeiro recado sinaliza que o cidadão nevense quer mudança no modelo de gestão, para isso acredita no efetivo realinhamento da vida política do município, o que significa dizer, mais investimentos nos serviços essenciais, que venham de fato alavancar o seu desenvolvimento político, econômico e social e, conseqüentemente, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Vale lembrar que o exercício da democracia pelos cidadãos, se concretiza quando existe a proximidade direta da população na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano, aliados aos investimentos em políticas públicas nas áreas de cultura e de lazer.

Outro recado dado diz respeito à ruptura da população, quanto à subserviência aos deputados chamados majoritários e seus agentes de campanha. Esse fato sinaliza que os 160.707 mil eleitores de Ribeirão das Neves rejeitaram os políticos de carreira, que, na maioria das vezes, introduzem na máquina pública, muitos protegidos despreparados e desqualificados, mas que lhes garantem lealdade. Isso cria barreiras tão eficientes que os moradores ao serem blindados, desistem de suas reivindicações. Vale ressaltar que a troca de favores condiciona a construção da cidadania, pois conspira contra o bem-estar coletivo.

Enfim, o número elevado de pessoas que se abstiveram de votar não pode de forma alguma ser ignorado pelos eleitos. Num total de 35.454 eleitores, equivalente a 18,06% dos votos válidos, além dos 29.515 eleitores que preferiram anular o voto. As propostas dos candidatos não convenceram estes cidadãos.

Assim, o professor Juninho Martins (PSC), eleito para a Prefeitura de Ribeirão das Neves, com 68.656 votos, equivalente a 58,49% dos votos válidos, terá que vencer muitos desafios, principalmente em mostrar serviços não só para quem lhe deu voto. Espera-se também a reinvenção por uma cidade melhor e respostas urgentes dos eleitos, às necessidades da população por serviços dignos de saúde, educação, segurança, transporte e mobilidade.  É necessária a busca de investimentos para que o crescimento do município seja impulsionado de fato, melhorando a qualidade de vida da população.

Para isso, espera-se que o prefeito eleito tenha mais diálogo com a sociedade, nos seus diversos setores, seja pela causa dos menos favorecidos e dos de melhor poder econômico. Ele vai gestar para todos.  O verbo agora é escutar. Ele é a ferramenta do político moderno, que aprende com o povo, administra com o povo e, também sabe ouvir os reclames do povo, lembrando que os eleitos devem ter no currículo os princípios humanitários para tratar questões sociais e, principalmente, honestidade para administrar o dinheiro público. Ter, acima de tudo, um olhar à erradicação da pobreza, numa cidade com mais de 300 mil habitantes, fragmentada e sem identidade, mas que tem um povo hospitaleiro e pacífico.

Aos vereadores, cabe legislar com inteligência, fiscalizar com isenção, propor em favor do interesse coletivo, lembrando que o Legislativo Municipal terá uma renovação de 70%. Espera-se que eles tenham mais transparência em suas reivindicações e ações. Mais diálogo com as comunidades que os elegeram. Vereador que só pede emprego no Executivo para apadrinhados pratica uma política viciosa e perversa.

Por fim, a cada eleição, renascem os sonhos e a esperança de mudanças por uma cidade melhor.  A esperança de se ver mudanças na condução da coisa pública, esperança de ver mais seriedade e competência por parte dos eleitos e, principalmente, que eles assumam de verdade o compromisso  com  a coletividade e não com os seus próprios interesses.

Os sonhos são muitos, mas principalmente, o sonho  por uma cidade onde todo mundo possa existir, uma cidade mais cidadã. Portanto, por uma Ribeirão das Neves infinitamente melhor.

 

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Quando se aproximava o mês de agosto, em Ribeirão das Neves, a expectativa dos moradores era de como seria a “Festa de Agosto”. Quando ela acontecia, a sensação que se tinha era que aqueles dias que movimentavam a cidade não deveriam acabar, pois um ano demorava a passar e os acontecimentos que modificavam o cotidiano de uma Neves tão pacata, trazendo religiosidade e alegria, era tudo de bom.

Isso num passado não muito distante. A cidade era pequena e nada acontecia a não ser a tradicional Festa de Nossa Senhora das Neves. Tempo em que os católicos nevenses transbordavam de religiosidade e fé para celebrar a padroeira. A preparação tornara-se tradição, passando de geração a geração. Era o respeito da sociedade e do poder público à fé católica.

Durante a festa, a face da cidade e de sua gente ganhava fisionomia e dimensões que não eram só de um município que abrigava uma grande penitenciária. O importante era se contagiar da alegria e dos ares festivos que embelezam a cidade e as pessoas. Então, Neves se enchia de pura poesia, tudo refletia mais intensamente, o vento, o sol, as luzes, as cores e os olhares dos moradores.  Além disso, a alegria de festejar Nossa Senhora das Neves, contagiava os moradores de municípios vizinhos, que, em romaria, vinham prestigiar as solenidades, enchendo a igreja, a praça, a avenida e ruas. E, surpreendentemente, aquele jeito tranquilo de viver nas ruas calmas e sem barulho, no dia 5 de agosto, mudava. E a grande novidade, eram os camelôs que faziam a alegria da criançada, além de um parque de diversão e um circo de tourada. O grande barato era curtir a festa o dia inteiro. E assim, Ribeirão das Neves se transformava em uma grande confraternização eucarística e social, num tempo em que o medo de assalto não existia, pois o ir e vir eram seguros e sem policiamento; as portas dormiam destrancadas!

Para mostrar a importância da festa, os moradores pintavam suas casas e, na família, todos ganhavam roupas novas para ir à missa. Tudo tão simples. O que importava era a fé, simbolizada no levantamento de Mastro de Nossa Senhora das Neves, que culminava com o show de fogos pirotécnicos, a missa solene e a procissão.  A parte social acontecia na barraca em volta da igreja, onde as regras de convivência eram sempre respeitadas. O festeiro promovia um leilão, um baile e, sempre no dia 5, oferecia um almoço para os moradores.

Na década de 1980, a cidade ganha muitos novos moradores e tudo começa a mudar. A tradição religiosa vai mudando na sua essência. Mesmo ganhando o glamour do poder público, a Festa de Nossa Senhora das Neves vai se descaracterizando, Ribeirão das Neves ganha ares de cidade grande, misturando religiosidade e comércio. A inovação introduz shows de artistas famosos e numerosas barracas de alimentação e de bebidas, armadas na Rua Ari Teixeira da Costa. Cresce a participação dos bairros nos ritos religiosos. A festa continuava, ela só tinha sucumbido aos tempos modernos também impostos à cidade. Neste momento, a tradição permitiu eliminar o que não era mais sustentável e incorporou novas ações. A festa florescia em versões diferentes e era uma tradição ressurgente na sua forma. Ela tinha que se adequar ao tempo, a interferência dos meios de comunicação, ao consumo exibicionista e tudo mais que o poder político podia oferecer para também tirar proveito. Mas, em meio ao mundo em descontrole, a festa tinha apoio suficiente e a tradição da fé, sustentação.

Nos anos 90, a modernidade bate firme à porta da festa e as mudanças ocorrem também na igreja. Comissões litúrgicas e sociais dão novo tom às comemorações, substituindo a pessoa do festeiro. Mas, os moradores continuavam a esperar o dia da festa e participavam ainda com entusiamo das solenidades religiosas, mantendo a tradição maior do município. O baile de agosto ficava por conta de uma comissão social, que também  promovia outros eventos em prol de Nossa Senhora das Neves.

Porém, nos últimos 9 anos, a insegurança das pessoas por causa da violência, a Festa de Agosto perdeu muito do brilho de outrora, dando-nos a sensação que a festa da padroeira cada vez mais seria só lembranças em  fotografias. Outro agravante foi o pouco envolvimento do poder municipal com a tradição maior do município - vale lembrar que a história de Neves (incluindo a força da Festa de Nossa Padroeira), é maior que as facções político-religiosos que aqui venham e se estabeleçam.

É certo que Neves vive o fenômeno da mundialização e as estruturas da tradição foram se tornando cada vez mais complexas e novas faces foram por elas incorporadas, mas, ainda assim, faltou apoio do poder público para que as festas tradicionais do município se fortalecessem, adequando-se às situações e intempéries. Segundo pesquisador Fábio Braoios, a construção da tradição é fruto direto da capacidade humana de selecionar e acumular experiências positivas e ensiná-las aos seus semelhantes. Isso porque o homem,diante de outros animais, é capaz de criar uma identidade. Assim, a tradição é resultado das diversas ações individuais aceitas e reproduzidas pelo meio humano. Ainda segundo Fábio, o homem com uma imagem equivocada da tradição, nega-a como suporte para as suas contribuições. Porém, não se pode negar a herança da tradição. Ela mesma nos fornece munição para alvejarmos o que de errado verificamos no status quo. Por isso, é vital que o município invista em suas tradições e costumes. A renovação da tradição depende das gerações futuras, mas se não há investimento real, ela corre o risco de morrer, pois sem herança, o jovem perde o vínculo às suas tradições e raízes. Ribeirão das Neves é hoje uma cidade sem identidade, massificada e sem investimento de fato na cultura e na memória da cidade. O que se tem são poucas fotografias em preto e branco. Os espaços públicos não são de fato ocupados, pois a violência intimida os moradores, mas como lembra a música, o povo precisa de lazer e não só de comida. Vale lembrar que o município tem um batalhão de Polícia Militar que pode garantir a ordem e a segurança  em todos os eventos, acostumando a população ao convívio sadio.

Vale lembrar ainda que as tradições são necessárias e persistirão sempre, porque dão continuidade e forma à vida. Isto através do ritual, do cerimonial e da repetição. A tradição tem um importante papel social, algo compreendido e posto em prática pela maioria das organizações, inclusive os governos. Assim pode-se vislumbrar a festa do Sírio de Nazaré, em Belém do Pará, a Festa de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida do Norte, a Festa do Senhor do Bonfim, em Salvador e tantas outras pelo Brasil a fora. Pode-se ainda apreciar os lugares tradicionais de Belo Horizonte como o arco do viaduto de Santa Tereza, a Rua da Bahia e suas histórias, o Café Nice, o acervo arquitetônico da Pampulha e a própria mineiridade, tão singular. Todas essas festas e lugares nos fazem refletir sobre a nossa “ festa de agosto”. Ela nos faz esquecer que não temos só penitenciárias, que geram dinheiro e poder para quem as constroem, mas, principalmente, que as tradições estão na alma do povo e, repetindo o que disse o poeta, em Ribeirão das Neves, vive um povo que merece mais respeito.

O certo é que a festa remete aos nevenses um passado de boas recordações para com a tradição à Nossa Senhora das Neves. O que nós faz ter também esperança . Quem sabe a chegada de uma nova administração municipal trará bons ventos e mais investimentos à memória e as tradições do município, pois um povo sem história é um povo sem identidade. Contudo, ainda há tempo de se resgatar o que ficou perdido, e esta empreitada tem de ser de todos  nós cidadãos comprometidos em reinventar uma cidade infinitamente melhor para se viver.

Vale ressaltar ainda que a Praça Matriz de Nossa Senhora das Neves, outrora emblemática para os nevenses, hoje virou Praça Central, onde está tudo junto e misturando, comércio, cultos evangélicos e missas com portas fechadas. A culpa recai na modernidade, que permite misturar ritos eucarísticos com barulhos ensurdecedores, obrigando os fiéis fazerem da Praça Nossa Senhora das Neves, um espaço só de passagem. A inversão de valores nos mostra o que vale mais.

 

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"Nem foi tempo perdido. Somos tão jovens" (R R)

O outono se apresentava mais quente que o esperado e, no mês de junho, o que se vislumbrava era a Copa das Confederações. Como o Brasil é o país do futebol, o cenário que se desenhava era dentro das arenas fabulosas, construídas para receber os gringos endinheirados e torcedores brasileiros, satisfeitos, cantantes, vestidos de verde e amarelo.

A peça imaginada seria a do povo indo às ruas para comemorar a vitória da seleção canarinho e a Copa das Confederações se transformaria numa grande festa. Deu errado. O Brasil virou o palco da indignação, colocando em cena jovens atropelando partidos políticos, cientistas sociais, ideologias, intelectuais e também a imprensa. Todos pegos de surpresa, vindos a reboque das mídias sociais.

O Brasil se transformou em uma gigantesca onda de protestos que sacudiu os grandes centros urbanos e que  se interiorizou rapidamente. Protestos produzidos e organizados por jovens, que reconquistaram a rua como espaço de  expressão e de  explosão da cidadania. Cartazes como "Vem pra rua", "Saímos do face" e "Basta de corrupção", sinalizavam que os jovens encenavam uma peça singular e fora da web,  e que, pacificamente, convocavam a população para protestar com eles. Todos numa só voz, buscando  um Brasil melhor: mais justo e solidário.

Em atos sequenciais, o palco simbolizado nas praças, avenidas, ruas e viadutos das grandes e pequenas cidades brasileiras, virou palco da indignação, aflorando a insatisfação latente no inconsciente popular. Essa “insatisfação” é o nome da peça, na qual protagonistas e antagonistas encenavam momentos de festa e de guerra. Através de vozes convictas e claras, os atores expressavam o quanto desprezam as formas tradicionais de representação.

Mas, ao protestar contra a péssima qualidade dos transportes de massa, as pessoas apontavam que os 20 centavos eram apenas a cabeça de um imenso iceberg. Era preciso mostrar que o país acordou. Era preciso dar um basta ao sucateamento dos serviços públicos, aos gastos excessivos com a Copa das Confederações e a corrupção que afronta a sociedade.  O grito irado  não era teatral, era de suor do trabalho e do sangue dos injustiçados socialmente. Era também um grito de um povo cansado de crer e de esperar pelo o que nunca lhe é retribuído.

Depois do dia 13 de junho, após violenta repressão policial, consequentemente, as manifestações se ampliaram, tornando o outono cívico e histórico.  Calcula-se que 1,3 milhões de pessoas saíram de casa naquela quinta feira para exercer a cidadania. Convocadas pelas mídias sociais, as bandeiras levantadas foram essencialmente políticas: a descrença nas instituições democráticas.

Para o sociólogo e professor da UFMG, Juarez Dayrell, o movimento dos indignados representa não só a reconquista da cidade pelos jovens, mas, acima de tudo, representa um grande desafio para as escolas, exigindo dos professores redobrada atenção para lidar com as especificidades dessa geração. Segundo ele, não há sala de aula que supere essa experiência de cidade. Para isso, a escola terá que investir nesse aluno, reconhecendo o jovem que está ali como estudante de um tempo novo. Jovens marcadores do seu tempo, que une paixão, ação e história.

Assim, o clamor das ruas surtiu efeito rápido. Transparência e redução de preços no transporte público e outras demandas da sociedade nas áreas da saúde, educação, responsabilidade fiscal, dentre outras, tiveram pactos para votações rápidas. Além do plebiscito para uma reforma política. Mas, além de tudo isso, é bom demais acreditar que a exclusão dos pobres, negros e homossexuais está com os dias contados.

Tempo para reflexão

Passada a ressaca das primeiras manifestações, cabe acompanhar com atenção o desdobramento desse acontecimento inédito no Brasil. Acontecimento que pôs em cena, os jovens em direção às ruas e à política, não cabendo, no momento, explicar o “novo” com olhos do passado. A dramaturgia é outra, os atores também. As manifestações que tomaram às ruas do país se tornaram desafios à segurança pública e aos familiares desses jovens que representaram um filme ainda não visto.

O que, então, de imediato, cabe falar? Cabe falar do tempo político reinventado. Tempo reinventado nos sustos, riscos, ameaças, mas também na beleza. Tempo de símbolos fictícios e reais que se misturam pelas frestas da democracia.

Tempo da catarse advinda das vozes e do canto dos jovens, que fizeram do corpo a pedra metaforizada para atingir as estruturas da representatividade e, por isso, acreditaram na revolta como um direito legítimo da democracia.

Tempo de marginalidade, que exclui e realça o jovem sem perspectiva. Ele que olha o outro bem nascido, com fúria e desejo de extermínio. É a explosão violenta advinda de uma infância de dor, sofrimento e exclusão, que veem no protesto agressivo, a revanche ao seu desamparo, a sua invisibilidade, ao seu antagonismo.

Tempo de duvidar de tudo, duvidar da imagem, do discurso, da informação, da arrogância, da farsa, do monopólio e, então, ler o que está nas entrelinhas: o golpe, a opressão, a manipulação...

Tempo de cidadania, do caminhar, cantar, exigir e protestar, abrindo clareiras pacíficas, dinamizando as relações sociais e acreditando que, sem contradição, não há democracia. Cidadania que resgata a autoestima e faz os protagonistas, buscarem, quem sabe, uma travessia, além das ruas, das praças avenidas, viadutos, das montanhas, dos mares...

Enfim, tempo da reflexão, de ver as manifestações, como uma leitura além do olhar, pois o que aconteceu resultou num campo "energético", difuso como hidra, gigantesco, caótico, parecido com a própria internet.

Mas, ainda assim, vale lembrar os versos de Caetano Veloso, quando vislumbramos um país melhor:

"Mil sonhos serão urdidos na cidade
Na escuridão, no vazio há amizade.
A velha amizade
Esboça um país mais real. Um país mais que divino. Masculino, feminino e plural".

 

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"Libertar a mulher é recusá-la encerrá-la
nas relações que mantém com o homem, mas
não as negar; ainda que ela se volte para si,
não deixará de existir também para ele;
reconhecendo-se mutuamente como sujeitos, cada um permanecerá um para outro."
( Simone de Beauvoir)

8 de março, “Dia Internacional da Mulher” são lembradas as conquistas definitivas e as lutas históricas vividas pelas mulheres por um mundo mais igual, e os mais de 30 anos de existência do movimento feminista, que mudou a participação delas no seio da sociedade, mostrando que as mulheres colocaram o pé numa estrada sem volta. Todas as conquistas, somadas à modernidade, mostram que a mulher tem um dom de viver, sem contudo, romper com o vínculo casa e família. Buscando também salário e identidade no mercado de trabalho, não perdeu a essência feminina: ser mulher e mãe.

No Brasil, além das comemorações, o dia promove reflexões sobre os avanços que ainda estão por vir e, que requer políticas públicas de atendimento à mulher, com investimentos em programas sociais, que venham melhorar a condição de vida de milhares, resgatando-lhes a cidadania e dando oportunidade a todas de terem os seus direitos respeitados, porque as conquistas profissionais e sociais ainda não as afastaram da discriminação no trabalho e dos mais variados tipos de violência.

Na década de 1970, as brasileiras saíram de casa para conquistar o mercado de trabalho. Com cautela foram cercando o epicentro da política, dos tribunais, das redações de jornais, as universidades, a presidência das grandes empresas e das fábricas. Muitas também administram com sucesso o seu próprio negócio, o que gerou uma nova estrutura nas relações sociais e profissionais.

Hoje, elas representam 44,9% da população economicamente ativa do país, isso, significa que as mulheres constituem 34,6% da força de trabalho, registrada como pessoa física, avançando em territórios que antes eram de exclusividade masculina. Mas, ainda assim, a discriminação no trabalho acontece. Mesmo desempenhando com competência o mesmo trabalho que o homem, a mulher tem salários menores, equivalentes, em média, 63% dos salários masculinos; muitas não encontram condições adequadas para desempenhar com dignidade a sua função, mas por medo, por necessidade, se sujeitam a trabalhar em situação precária. Os assédios sexual e moral ainda permeiam o cotidiano de muitas mulheres, colocando-as em situação de humilhação e de isolamento. Esses tipos de violência devem ser denunciados para que os agressores sejam desmascarados e punidos.

E a violência acontece em todas as camadas da sociedade. Todos os dias mulheres pobres, ricas, cultas e analfabetas sofrem variados tipos de violência, no lar, no trabalho, na rua. E os agressores tanto podem ser o pai, namorado, marido,chefe e assaltante. Lembrando o que disse um dos mais competentes promotores de Minas Gerais e do Brasil, Francisco de Assis Santiago, “ a mulher ainda não conseguiu se livrar do homem violento.” De fato, muitas não têm coragem de denunciar os seus algozes, preferem fugir a entregá-los à justiça, tamanho medo e fragilidade. Mas, vale lembrar que a Lei Maria da Penha está aí para defender a mulher e punir o seu agressor, e, se Lei existe, é porque Maria da Penha Maia Fernandes foi à luta e denunciou o seu marido, depois de muitas agressões e tentativas de homicídio que a deixou paraplégica.

Quanto à saúde, um estudo divulgado pela Organização Mundial de Saúde – OMS – mostra que o acúmulo de exploração no trabalho, aliado a pressão econômica e familiar; problemas com filhos e companheiro indiferente, preguiçoso ou violento, levam a mulher a trombar de frente com a saúde mental. Duas mulheres para cada homem sofrem de depressão, ansiedade e stress, decorrentes do seu papel social e de seu status socioeconômico desigual. Vale dizer que, com todo avanço na biomedicina, muitas mulheres não têm amparo médico. Não fazem o preventivo de câncer de colo do útero e de mamografia. Ainda que a Constituição do Brasil, de 1988, determine em seu artigo5º, que homens e mulheres têm direitos iguais. O certo, porém, é que a consciência cívica das mulheres mudou muito mais do que a lei.
Em relação à afetividade, segundo a socióloga, Regina Navarro Lins, muitas mulheres ainda acreditam em príncipe encantado, porém um príncipe repaginado. Segundo ela, mulheres entre 15 e 60 anos, querem um companheiro que a apoie e incentive seus projetos pessoais, não mais o antigo provedor.

O certo é que o mundo mudou muito em 50 anos, e, principalmente, para as mulheres. Elas são maioria nas universidades, nos cursos de pós-graduação e compete com os homens no mercado de trabalho. No Brasil, uma mulher chegou à Presidência da República, pela primeira vez, o que é motivo de orgulho. E, milhares de mulheres em todo planeta, diariamente, batalham para dar voz aos seus desejos, transformando papéis e mudando comportamentos. Por isso, é justo reverenciar neste dia, mulheres emblemáticas como Mayana Zatz, Indira Gandhi, Camille Paglia, Janis Joplin, Oprah Winfrey, Madre Tereza, Virgínia Woolf, Nellie Bly, Pagu, Zilda Arns, Clarice Lispector, Elis Regina, Marina Silva, Glória Maria, Nize da Silveira, Leila Diniz...

Assim, a história tem muito a nos ensinar. Muitas vezes, em momentos cheios de aspereza é possível ter um quinhão de felicidade, pois com todos os avanços e no meio de tantos conflitos e contradições, os fatos estão aí para serem discutidos, avaliados e vivenciados por mulheres e homens, que podem e devem construir um nova história, em que o maior desafio é o democrático, que porá fim a exclusões, às desigualdade e as discriminações sociais contra a mulher.

Que todos os dias, a luta contra a situação de violência, exclusão e desigualdade às mulheres continue... e que o diálogo seja o instrumento a ser utilizado e acolhido como um bem da humanidade, porque a mulher é a grande força do Século XXI, isso, porque ela acreditou na dinâmica que permitiu mudar a ordem das coisas, e não fugiu à luta. Nesta tarefa a mulher foi iluminada, o que a coloca em constante encantamento para vivenciar e preservar o mundo feminino, buscando unir competência, emoção e prazer. Além disso, a mulher é capaz de criar um espaço afetivo no trabalho, na política e na vida em si, acredita na utopia e, por isso, abre o sentimento e o pensamento para um mundo novo.

Acredito, as regras estão mudas não para esmagar o homem, mas para construção de uma sociedade mais justa e igualitária e, sobretudo, mais sensíveis aos anseios humanos, independente do sexo e, em prol do bem comum.

 

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Ainda que o Natal hoje não tenha mais a calma, a simplicidade, o afeto familiar, o respeito e o silêncio da oração, pois NELE está incorporado o espetáculo televisivo: muita iluminação, muitos fogos de artifícios, parafernálias de sons, axé, funk … Ainda assim, vale lembrar que o Natal é para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há mais de 2000 mil anos, em uma manjedoura miserável, mas  que trouxe uma mensagem renovadora de comunicação para o planeta.

Ainda que o Natal tenha sido banalizado pela vida moderna do “ter” e não “ser” e, hoje, é um acontecimento que  não mais surpreende. Ainda assim, as luzes que desenham  árvores, praças, ruas, lagoas e janelas das cidades, aproximando de uma obra de arte, com certeza, chamam a atenção e provocam alegria em quem as vislumbram, imaginando o som do jingle Bell.

Ainda que o Natal seja também uma farra comercial, de shopping centers, disputa por espaço, trânsito enlouquecido, muita comida e bebida. Ainda assim, o Natal é a
Ainda que eu repita que  nada é menos surpreendente do que o Natal e que as suas contradições me assustam. Ainda assim, eu me rendo à sua tradição: aos abraços de confraternização, a missa do galo, ao presépio, ao brinde, a saudade…

Ainda que o Natal tenha se transformado em rituais gastronômicos, perdendo a antiga delicadeza. Ao invés de família reunida, deparamos com ricos e pobres solitários, tentando recriar uma “ Noite Feliz”, nem que seja em lanchonetes e botequins. Ainda assim, acredito nos olhos que nos olham com sentimentos  e atenção (Quem sabe é o CRISTO vivendo em nós) e, então, o Natal está sendo comemorado todos os dias.

Ainda que o Natal seja hoje  uma repetição instituída com mensagens mecanizadas faladas e ilustradas. Ainda assim, “ ELE” estará salvo porque simboliza o amor incondicional e fraternal.

Ainda que do Natal não seja  preciso dizer mais nada, porque não tem como desenvolver um novo enfoque a seu respeito. Ainda assim, vale lembrar que a sua essência é a simplicidade e família reunida, mensagem remetida há mais de 2012 anos, daquele que é sinônimo de amor, JESUS. Então, só por isso, VIVA O NATAL!

 

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"É na forma de imagens que a cidade ganha uma existência concreta na memória de seus habitantes e visitantes. Mas, é também  a partir de suas relações com as contradições sociais, com o passado que a memória não esqueceu ou com os conflitos e harmonias que fazem o presente."

Ao completar no dia 12 de dezembro, 59 anos de Emancipação Política, Ribeirão das Neves pode comemorar os avanços ocorridos  em áreas importantes como saúde , assistência social, segurança pública e educação. O município conta hoje com duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), duas Unidades do SAMU e o Programa Saúde da Família (PSF), que atende muitas pessoas em todas as cinco Regiões Sanitárias do município, cresceu e melhorou o atendimento. Viabiliza vários programas de Assistência Social, amparando crianças, jovens, adultos, idosos e famílias em situação de vulnerabilidade social. Conta também com um policiamento mais ostensivo e mais segurança com a vinda do 40º Batalhão de Polícia Militar de  Minas Gerais. Avançou ainda ao investir em  saneamento básico e infraestrutura, melhorando a  vida dos moradores. Vale lembrar que, alguns bairros  contemplados, os moradores conviviam com muita poeira, lama e enchentes, há mais de 30 anos. Além disso, é visível o crescimento do comércio, o que dá mais opções de compra para o cidadão e ele pode se deslocar dentro da própria cidade, diminuindo o seu tempo de ir e  vir.

Assim, ainda que a cidade tenha muito a conquistar para melhorar e universalizar a qualidade dos serviços prestados à população,  é preciso reconhecer e pontuar que, de fato, o município avançou. Por isso, comemorar o seu aniversário com um olhar positivo e otimista, é acreditar que dias melhores virão. É vislumbrar, que, definitivamente, Ribeirão das Neves, colocou o pé no desenvolvimento, deixando para trás o atraso econômico e social, diminuindo a injustiça social.

Essa afirmação advém da constatação que, nos últimos anos, o município vivenciou momentos históricos, recebendo em seu chão o Presidente da República, senadores, deputados  e demais personalidades do mundo político e empresarial. Esses fatos confirmam que Ribeirão das Neves é uma carta importante dentro do jogo político. Afinal, são 175 mil eleitores e, por isso, as verbas vindas dos governos federal e estadual não são de graça.

Vale pontuar também que, mesmo vivendo às carências e contradições de um município que cresceu desordenadamente sem nenhuma infraestrutura que justificasse esse crescimento, e, por isso, as consequências são desastrosas,: miséria, desemprego, analfabetismo, violência e trabalhadores desenformados e sofridos, a eleição da petista Daniela Corrêa mostrou que os eleitores de Ribeirão das Neves  reconheceram que o Partido dos Trabalhadores ( PT) ainda é o partido dos lascados e invisíveis que começaram a discutir política. Que o PT ainda é um partido de raiz popular e, portanto, engloba pessoas que sonham com um Brasil diferente e, porque não, uma Ribeirão das Neves melhor: mais justa e solidária. Por isso, mesmo que pessoas chaves do partido tenham cometido irregularidades inaceitáveis, o certo é que o Mensalão não é maior que a causa do que o PT representa. Ele representa aqueles que vêm do abandono e da marginalidade.

Vale pontuar ainda que, ao apostar na eleição de Daniela Corrêa, os eleitores de Ribeirão das Neves estão, quem sabe, inaugurando um novo tempo para o município, abrindo espaço para os movimentos sociais e também promovendo uma relação mais participativa com o Poder Público e com os vários segmentos da sociedade nevense.

Que os parabéns ao município, que coloca depois de 20 anos, uma mulher novamente no Poder Executivo, se estenda também Daniela Corrêa, que teve uma expressiva votação.  Que ela tenha a sabedoria, competência e ação para encarar e vencer os desafios e  melhorar a qualidade de vida dos mais de 300 mil habitantes de Ribeirão das Neves, dando-lhes também voz e oportunidades de estarem junto à Administração. Não se pode esquecer que o município que tem um dos mais baixos Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do Estado de Minas Gerais, que tem um transporte coletivo precário, desumano e, mesmo assim, trabalhadores são obrigados a transitar por uma LMG 806, perigosa e abandonada. De um município que sofre há décadas com o estigma de "cidade dos presídios".

Mas, misturada ao parabéns e ao otimismo, está a cobrança, pois espera-se que a futura prefeita de Ribeirão das Neves tenha a nobreza e a inteligência de continuar o que de bom já existe na cidade, aprimorando os planejamentos de acordo com às necessidades das comunidades. Que ela traga também mais visibilidade às coisas boas do município, que tem um povo hospitaleiro, que invista na cultura, nos artistas e no cidadão comum, na cultura, no lazer, "porque a gente não quer só comida", e na memória da cidade.

Que você, Daniela, não faça do município só um palanque político, onde os moradores têm que bater palmas a cada inauguração. Que todos tenham  a oportunidade de discutir o espaço da cidade, pois um projeto do espaço urbano em todas as suas formas, é pensar na qualidade de vida dos moradores. Vale lembrar que é por meio da imagem, que se pode vislumbrar o futuro que queremos: uma Ribeirão das Neves melhor daqui a quatro anos.

Bem-vinda, Daniela Corrêa!

 

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