Por Walter Menezes
Gostaria de esclarecer, primeiramente, que não escrevo sobre estes temas por algum tipo de complexo ou frustração. Sou uma pessoa extremamente realizada em todos os âmbitos — familiar, social, profissional e financeiro. Mas, ainda assim, me vejo no direito e na obrigação de me indignar com o que entendo estar em total desencontro com os interesses da sociedade.
No Sete de Setembro, comemora-se em várias localidades do País a Independência do Brasil. Não só se comemora, como também se aproveita a data para condecorar autoridades diversas — uma pequenina minoria por meritocracia, e o restante por ato meramente político. Mas será mesmo que o Brasil é um país independente?
Na verdade, somente uma classe tornou-se totalmente independente: a classe política. É ela que decide o que quer e como quer que o País esteja. Como sabiamente disse-me uma amiga: “Dizem nos representar, mas decidem sem nos ouvir”.
O que mais causa indignação é que o político brasileiro decide, sem ser contestado, o quanto ganhar, o que ganhar e como ganhar. Em janeiro, em uma única reunião, decide-se o percentual do aumento salarial da classe, sempre com índices muito acima da inflação divulgada pelos órgãos oficiais do próprio governo. Já para o Salário
Mínimo e as aposentadorias, são necessários mais de quatro meses de votação para aprovar reajustes que ficam frequentemente abaixo da inflação.
Junto ao salário extremamente generoso — também decidido por eles, para eles mesmos —, somam-se dezenas de benefícios: vale-paletó, auxílio-moradia, veículo automotor com ajuda de custo para transporte, passagens aéreas, hospedagem, alimentação, cartão corporativo e outras vantagens paralelas que fogem ao conhecimento da nação. Soma-se a isso a estrutura de diversos assessores pagos pelo contribuinte para cada eleito, com a função primária de promover a imagem do político. É preciso considerar ainda a imunidade parlamentar. Criada para garantir o debate em defesa de teses a favor da sociedade, foi deturpada a ponto de tornar os políticos imunes inclusive a atos ilícitos cometidos dentro e fora da atividade pública. O cidadão comum, se deixar de votar em uma eleição e não justificar, fica impedido de tomar posse caso passe em primeiro lugar em um concurso público, além de sofrer diversas outras penalidades. Enquanto isso, um político, mesmo condenado, pode ser considerado elegível, com o direito de governar o País. É o verdadeiro “V” da mentira, tão explorado em campanhas.
Independência é algo que a população brasileira ainda desconhece. Vivemos em uma sociedade refém do sistema, onde aqueles que deveriam nos representar sugam o sangue de quem produz por meio de imposições e tributos. A classe política dita as normas impiedosamente, burla leis em benefício próprio e faz uso do corporativismo e do paternalismo. Os órgãos fiscalizadores caminham de mãos dadas com os que deveriam ser fiscalizados, sem nenhum constrangimento, diante da inoperância e omissão da sociedade. Criam-se cenários milionários no STF pagos pelo povo, simulando a defesa dos interesses da população quando, na verdade, trata-se de perseguição de uns em benefício de outros políticos.
O povo brasileiro ainda não tem o que festejar ou comemorar. Enquanto essa conquista for exclusiva de uma classe — e enquanto aceitarmos que os eleitos para a Presidência, Governos Estaduais, Senado, Congresso Nacional, Câmaras, Ministério Público, Tribunais de Contas e STF usem as instituições em favor de seus próprios interesses —, o cidadão comum continuará sem motivos para celebrar esta data, a menos que tenha algo particular a comemorar, como um aniversário ou casamento. Quer um exemplo dessa lógica? Ao comprar um veículo no Brasil, o preço já vem onerado em quase 40% de impostos. Após a compra, há a despesa com a transferência de titularidade — e não de propriedade, pois o bem continua sob domínio indireto do Estado. Concedida a titularidade, paga-se o Licenciamento. Pago o Licenciamento, exige-se o IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores). Se o pagamento deste imposto estiver em atraso, o veículo pode ser apreendido pelo governo. E, mesmo desembolsando tudo isso, o cidadão ainda enfrenta pedágios caríssimos nas rodovias. Diante de tudo isso, a pergunta que fica é: nós somos realmente representados?

