A pergunta que dá título a este texto motivou pesquisa realizada pelo Observatório de Ribeirão das Neves, tendo em vista a forte presença, na região de Justinópolis e Areias, de famílias de origem japonesa. Nosso objetivo foi reconstruir os caminhos e descaminhos que levaram os pioneiros da família Takahashi a abandonarem a sua terra natal e migrarem para o Brasil.
Essa saga se inicia no ano de 1926, ou seja, completa 100 anos em 2026, quando os patriarcas dessa família, Motokichi e Kendiro Takahashi, chegaram ao Brasil para trabalhar nas fazendas de café no interior de São Paulo. O contexto em que viviam o Brasil e o Japão é de fundamental importância para compreender a trajetória vivida por essa família. Naquele período, o Japão enfrentava uma crise populacional e incentivava seus cidadãos a irem para outros países adquirir riqueza e retornar, o mais breve possível, trazendo recursos para ajudar a desenvolver o país. Esse incentivo chegava ao ponto de permitir que os cafeicultores paulistas fizessem propaganda para recrutar japoneses a virem para o Brasil, no intuito de trabalharem nas fazendas do “ouro negro”, ou seja, do café.
Já o contexto brasileiro era marcado pela crise do perverso projeto eugenista brasileiro, que, com o fim da escravidão, tinha o propósito de “clarear a raça” do país, trazendo para o Brasil imigrantes alemães e italianos — nações que, no final do século XIX e início do XX, enfrentavam fortes quadros de pobreza e guerra — para substituir a mão de obra tradicionalmente exercida pelos negros. A questão era que, no início do século, o governo brasileiro enfrentava problemas para trazer novos imigrantes italianos e alemães, pois os governos de seus respectivos países haviam proibido a vinda de seus cidadãos para trabalhar nas fazendas do interior paulista, diante de denúncias de escravidão por dívida. Ou seja, assim como fizeram com a população de origem africana, buscavam escravizar alemães e italianos, dessa vez pela modalidade de escravidão por dívida.
Frente a essa proibição, os cafeicultores paulistas, com incentivo do governo brasileiro, mesmo enfrentando o preconceito dos brasileiros frente à “raça amarela”, resolveram suprir essa lacuna de mão de obra incentivando a imigração japonesa e, em uma dessas levas, os pioneiros da migração japonesa em Neves chegaram ao Brasil.
O cenário que encontraram não foi nada diferente do apresentado aos italianos e alemães. As promessas de prosperidade e riqueza se desfizeram no próprio Porto de Santos. Como haviam contraído dívida referente à viagem e aos próprios custos de se instalarem na fazenda paulista, passaram, desde o primeiro momento, a viver sob o jugo do fazendeiro paulista. Essa realidade fez com que os membros da família Takahashi se mobilizassem para fugir dessa condição, migrando primeiramente para a cidade de Uberlândia e, logo em seguida, vindo para a recém-fundada capital mineira.
Em Belo Horizonte, Motokichi e Kenjiro, os dois heróis dessa saga, junto com outros membros de sua família, instalaram-se na região hoje conhecida como Venda Nova e, ao arrendarem uma grande extensão de terra, fundaram a Fazenda Mikado. Essa propriedade agrícola, devido aos conhecimentos técnicos trazidos do Japão por Motokichi e Kenjiro, no que diz respeito ao cultivo da terra, em poucos anos despontou na produção de hortifrutigranjeiros, suprindo não só a demanda da capital mineira, mas chegando a enviar produtos para a capital nacional, que naquela época era o Rio de Janeiro.
A estabilidade e os tempos de bonança da família Takahashi duraram pouco. Em 1942, a entrada do governo brasileiro na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados, declarando o Japão — que compunha, com Alemanha e Itália, as nações do Eixo — como inimigo, fez com que passasse a perseguir todos os cidadãos japoneses que viviam no Brasil. Com isso, a Fazenda Mikado foi desapropriada pelo Estado brasileiro, todos os homens da família Takahashi foram presos e enviados para a Penitenciária Agrícola de Neves, e as mulheres e as crianças da família ficaram à própria sorte, encontrando abrigo no Bairro Areias, onde sobreviveram a duras custas durante anos, chegando a depender da ajuda de fazendeiros locais, que forneciam ossos do gado abatido para a sua alimentação.
Fato importante desse violento processo descrito acima é que a estadia dos homens da família Takahashi na Penitenciária Agrícola de Neves (PAN) ajudou a consolidar o próprio nome da unidade prisional, tendo em vista que, no tempo em que estiveram presos nessa unidade, receberam a permissão e o incentivo dos diretores para ensinarem técnicas de cultivo da terra aos demais detentos. Ao ponto de, após o fim das hostilidades entre Brasil e Japão com o término da guerra, mesmo depois de libertados, alguns membros da família continuarem trabalhando nessa função dentro da Penitenciária Agrícola de Neves.
Após a soltura dos homens da família Takahashi e o reencontro com as mulheres e crianças, com o fim da guerra — que teve como saldo a quase total destruição do Japão, inclusive com seu território sendo atingido por duas bombas atômicas —, o plano de enriquecer e voltar para o Japão não era mais possível, tendo em vista que, nas palavras dos próprios imigrantes, “não havia mais Japão para retornar”.
Com isso, as famílias Takahashi, mesmo com muito preconceito enfrentado por elas em contexto pós-guerra — preconceitos inclusive incentivados pelo próprio Estado —, resolveram se estabelecer na região do Bairro Areias e hoje configuram uma grande comunidade que representa um pedaço do Japão em Ribeirão das Neves, e que merece ter sua história valorizada e melhor conhecida.
Por isso, se você faz parte da família Takahashi e/ou sabe de alguma particularidade que possa nos ajudar a contar melhor essa história, pode entrar em contato conosco pelo seguinte endereço: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

