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Em tempo de eleições

A "espera", apenas a "espera" é o que retrata ironicamente "Esperando Godot". Uma espera interminal por alguém ou algo que nunca chega. Em dois atos e cinco personagens em cena, a peça começa e termina da mesma maneira, criando suspense e tensão dramática, mostrando a miséria do homem e do absurdo da sua condição. Porém, nada acontece. É a visão trágica do homem e do universo. Estragon e Vladimir são dois vagabundos que esperam infinitamente por Godot. A estória é sobre o "nada". O cenário é qualquer cidade devastada, qualquer chão de uma estrada deserta onde os dois vagabundos esperam Godot e, “esperar” significa não fazer nada. Os dois palhaços em cena arrancam riso da platéia, que descobrem na "espera" a incansável busca do homem por um sentido.

O caráter inovador de Esperando Godot é ainda bem atual, pois revela a perda de alguns valores éticos e morais do homem contemporâneo. A peça escancara o modo de vida de uma sociedade que se esvai a cada momento, mostrando um homem que tem a identidade estilhaçada e sem aparente destino, mas que busca uma realização e essa busca se escoa no absurdo do cotidiano. Um cotidiano imediatista e, excessivamente, impessoal. Assim, a "espera" aponta para a loucura de um homem sem comando, insignificante e de uma solidão impensável.

Dessa forma, a peça Esperando Godot faz uma análise surpreendente sobre a crise espiritual de uma humanidade sem apoio aos sistemas metafísicos. Ao apontar um desequilíbrio, o texto cria na platéia uma instabilidade, um desconforto que deságua no riso. É uma análise da condição humana e que coloca o ser humano em xeque-mate, pois o que poderia parecer absurdo fica angustiantemente normal. A intenção do autor não era contar uma estória, nem que a platéia voltasse satisfeita pra casa, o que ele pretendia era revelar que a vida não era fácil e bela como muitas pessoas fingem ser. Ele estava preocupado em fazê-las refletir/pensar sobre a condição humana e, como resultado, operar mudanças nas mesmas. O objetivo era fazê-las pensar, ter idéias e palavras para operar as ações transformadoras. Descobrir o significado mais profundo das coisas através de uma visão mais cuidadosa, fugindo ao senso comum. Este é o "teatro do absurdo" criado pelo dramaturgo Samuel Beckett, que apresenta um humor pessimista, caótico, mas revelador, filosófico e, sobretudo, verdadeiro.

De acordo com a crítica, Esperando Godot permanece como uma das mais belas e alegóricas peças teatrais do nosso tempo. Além disso, é um bom exemplo para situar a importância do teatro na vida das pessoas, pois o teatro é um lugar de vivências das ambigüidades e dos paradoxos, onde as coisas são formadas em mais de uma forma ou sentido e, por isso, é um despertar de sentimentos. Sendo assim, o teatro exerce uma função transformadora e por meio do impacto emocional, leva a pessoa a refletir sobre determinada questão moral ou social.

O período eleitoral no Brasil nos remete ao teatro. É possível identificar algo em comum entre a peça Esperando Godot e a propaganda eleitoral brasileira? Sim. Ambas provocam riso de diferentes formas. A peça, apesar da abordagem trágica, arranca risada da platéia. Já a propaganda eleitoral no Brasil tem se configurado num “ teatro do absurdo ao avesso.” Não ensina nada, não leva a nada e só irrita quem assiste. As peças são mal redigidas e as cenas também mal dirigidas e interpretadas, resultando em um palco sujo e nada inteligente. O ensaio improvisado mostra o desfile de caras e bocas de personagens que não convencem. Os diálogos são recheados de promessas, de mentiras e de candidatos que querem apenas “se arrumar.” Basta ouvir dos atores suas propostas, conhecer seus acordos e alianças para se concluir sobre o “vazio” das candidaturas e constatar que a mudança política no país, é uma quimera e, ainda que a despolarização entre o reino azul e vermelho tenha se rompido, a insegurança é total, estamos vivenciando a ponta de um iceberg.

Este é o palco da política brasileira. Há muito a platéia não prestigia, nem aplaude em cena aberta, porque o que sobrou foi desalento e decepção. O medo vence a esperança.

Para quem acompanhou a propaganda pela TV, certamente tem noção de como será o nosso próximo Congresso, Câmara e Assembleias. Ainda que muitos coronéis tenham ficado de fora nesta eleição, a sensação que se tem é que essa renovação, pouco ou nada mudará. O funcionamento dessas casas está em descrédito. O brasileiro acredita que tudo será como antes: privilégios, gastos superfaturados, troca de favores, corrupção ( ela é endêmica no país) e impunidade.

O brasileiro vai pouco ao teatro por falta de oportunidades, mas do processo eleitoral está distante e desinteressado por acreditar que ele já deu o que tinha que dar. Chega de farra com o ouvido alheio.

Dessa forma, vale salientar que a representação política no Brasil precisa ser recriada, reinventada e, ainda que os marqueteiros criem cenas mirabolantes para conquistar a simpatia da população, o discurso está desgastado e o eleitor percebeu que suas reivindicações estão em segundo plano, pois acabada a eleição somente os acordos firmados no decorrer do processo eleitoral terão importância.

Porém, nestes dias que antecedem o segundo turno para a eleição do novo presidente da Republica e também para governador em todos os estados brasileiros, vale lembrar as manifestações de junho de 2013, quando expressiva parcela da população desfilou a sua indignação, passando por cima de governo, partidos políticos e imprensa, pois tudo foi organizado e orquestrado pelas redes sociais. E são elas que determinam as "regras do jogo eleitoral".

O clamor das ruas deixou um recado: é necessário mudar padrões de gestão, melhorando significativamente os serviços públicos, com destaques para a saúde, mobilidade urbana e segurança. É preciso dar um basta aos escândalos que flagram atores políticos nos mais diversos palcos da corrupção. É preciso promover as transformações que venham beneficiar a sociedade com políticas emancipatórias e não só compensatórias. É imprescindível realizar a reforma política, acabando com os discursos partidários, que pregam mudanças para ficar tudo como está.

O certo é que estamos às portas de mais uma eleição da qual toda nação dependerá nos próximos quatros anos. E como será o país a partir de 2019? Que políticas serão implantadas para vencer desafios enormes como a crise econômica, o desemprego, e saúde precária ? Vale lembrar que os programas Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e PROUNI estão nos braços da sociedade brasileira e se consolidaram como política pública eficaz para os mais pobres.

Enfim, este é um momento importante no cenário político brasileiro. E, mesmo com tanta insegurança e sentimento de descrença, votar é exercer a cidadania plena. Por isso, se seu candidato tem o perfil de trabalho, compromisso, credibilidade e competência vote nele. Mas, antes, verifique a sua atuação anterior e, quando eleito, cobre todos os dias o que ele prometeu. Mas, se a esperança em dias melhores não vencer o desalento, apegue-se às artes: à música, à dança, à poesia ... Elas são capazes de no dia a dia, nos emocionar, nos alegrar e nos fazer pensar. Assim, use a política da compensação. Vá ao teatro.

Nota: Samuel Beckett – escritor, ensaísta e dramaturgo irlandês, prêmio Nobel de Literatura em 1969. É considerado um dos mais importantes dramaturgos do mundo, sendo referência internacional no teatro e na Literatura do Século XX. É o criador do "teatro do absurdo". Samuel Beckett promoveu a desconstrução da palavra e criou a apoteose da solidão humana e sua insignificância e tudo sem vislumbrar a esperança. A peça Esperando Godot é uma tragicomédia enigmática e foi escrita em 1952. A sua abordagem é bem atual, pois as pessoas querem a transformação, mas não colaboram para que ela ocorra. Só esperam.

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