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Lembranças de Carnaval

O ato de rememorar tem importância incomensurável na vida das pessoas. Ao explorar a memória como fonte de felicidade nos deparamos com emoções vividas, que nos remete a um passado redentor, iluminado por algo acolhedor, apaziguador e que se transforma em  lembranças mágicas que estão só adormecidas. Porém, basta acionarmos a memória e tudo acontece de novo.

O carnaval entrou na minha vida por volta dos 11 anos, quando, por pura curiosidade, abandonei as excursões promovidas pela igreja católica para as crianças do catecismo. Fantasiada de índia me achei o máximo e o salão era bem pequeno ali, na Avenida dos Nogueiras. Nos anos que se seguiram, a animação se ampliou e a minha alegria era brincar e  pular todos os dias de carnaval, mesmo sem fantasia.

E este meu gostar foi crescendo e Ribeirão das Neves também. De forma que eu achava nunca  me aposentar dessa festa, que, para nós pré-adolescentes, quatro dias era pouco demais.

Os anos se passaram mais ainda, e ai, surgiu em Neves,  o Ipê Neves Clube. Pura novidade para os jovens nevenses de então. Havia matinés para a garotada, mas o grande barato para mim  era  já poder ir aos bailes à noite. O corpo de menina- moça era só vaidade. Corpinho magrinho que permitia o short bem curtinho e camiseta bem colada. Era tudo de bom! A maquilagem forte e permitida pela mãe, realçava mais o visual. O baile animado por uma banda de música varava a madrugada. As voltas incansáveis no salão eram embaladas pelas marchinhas: Bandeira branca, Me dá um dinheiro aí, Aurora, Lourinha … e  não cansava ninguém. O braço enlaçado na cintura e também um beijo roubado no final da folia, criava expectiva para o baile seguinte.

Um dia, o Ipê Neves Clube fechou e o carnaval em Neves acabou, mas a minha carreira de foleona, não. Estudante universitária fui brincar em outras cidades. E foi lá nas ladeiras de Ouro Preto e Diamantina que conheci o carnaval de rua animado com muita batucada e samba no pé. Nessas cidades cosmopolitas presenciei a essência do carnaval: a liberdade total. Descendo e subindo ladeiras tudo era permitido. Foliões fantasiados, pirados, despersonalizados. Na rua das Flores em Ouro Preto, o alto-falante animava os foliões de muitas nacionalidades, desajeitados, embriagados, mas sintonizados com a folia. Isso é que contava. Em Diamantina, no Mercado, ao rítmo da batucada, a folia enloquecia quem não tinha juízo.  E, por isso, não é prudente compartilhar essas lembranças.

E foi em Diamantina que comecei a me divorciar do carnaval. Quando o axé começou a dominar a festa, eu compulsoriamente tirei meu time de campo. A falta de afinidade com o “ tira o pé do chão” foi me afastando da folia. Eu que sou contemporânea dos samba-enredos de qualidade, não assimilei o rítmo massacrante do axé. Preferi sentar no sofá de casa e assistir ao desfile da minha escola de samba preferida e apreciar a genialidade de Joaozinho Trinta. Dessa forma, fui desapegando e hoje estou aposentada do carnaval.

Contudo, o meu olhar sobre os meus carnavais é mais saudoso para a folia da minha cidade, onde a brincadeira era tão simples, tão ingenua, mas tão saudável. Violência não existia. Por isso, é válido lembrar que a minha geração foi privilegiada, pois divertíamos e curtíamos o carnaval aqui, na nossa querida Ribeirão das Neves, onde o carnaval é coisa do passado. Assim, por hora, carnaval pra mim é só na lembrança. Mas fecho com a frase do grande escritor Guimarães Rosa: “O que lembro tenho.” Isso me serve como consolo.

 

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